Caricato!

Hoje foi dia de extraír o mel de eucalipto e trevo oxalis.

Após terminado o trabalho, e enquanto escorriam os opérculos lá fui eu com o meu companheiro de lide ver o mato e as abelhas.

Encontrámos no caminho um Dono de abelhas de uma geração mais antiga. O homem ouviu falar que os novos crestaram, e decidiu-se a experimentar também, recolhendo a sua vintena de kg’s. Mas ao passarmos por ele, deparámo-nos com uma colméia cujo enxame morrera e que ele recolheu a casa.

Fui inspeccionar para ver quais as causas do óbito. E qual o meu espanto que, ao levantar a prancheta, me deparo com tiras de acaricida fluvalinato. E se aquela as tinha…as outras suponho que as tenham!!

Dói a alma pensar quantos Portugueses terão de meter tais químicos no prato por ignorância dos donos das abelhas e sua própria enquanto consumidor. Quanto tempo levará a que esta forma de “Não Saber Fazer” termine para não mais voltar.

Cada vez mais axo que o mel mais seguro é o dos grandes apicultores, ou de pequenos apicultores mas desta geração mais esclarecida.

Cada vez mais tenho receio de que noutros setores agrícolas o mesmo aconteça. Que por ignorância ou por negligência.

Vale a pena pensar nisto…

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Sobre abelhasdoagreste

Jovem, apicultor apaixonado e que comercializa inovação apícola.
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27 respostas a Caricato!

  1. Bernardino da Silva Gomez diz:

    Olá Afonso.
    A culpa com certeza não é deste apicultor, mas sim das associações que quase obrigam a comprar estes produtos, também o timol que tantos apicultores usam ainda é pior,” Já foi comprovado cientificamente,” cabe as associações por fim, a este mau préstimo a apicultura, e rasgar contratos feitos com essas empresas que os fabricam. Temos que apostar nos tratamentos biológicos, Fazer parcerias com as universidades para seguirmos um bom caminho.

  2. Isso é pura verdade Dino!. Mas aqui não existem associações, nem cooperativas. Não temos tradições apícolas e diria que 50% das colónias não são registadas. É um regaboff. Mas eles têm tanto direito como eu a ter abelhas, e não deveriam ser penalizados, mas sim receberem conhecimento. O problema na minha Ótica é a falta de política capaz da FNAP.

  3. Eduardo Gomes diz:

    Sem duvida que as tiras de Apistan, ou outras tiras com acaricidas sintéticos, têm uma altura própria para serem colocadas e outra para serem retiradas. Não ter tiras com acaricidas sintécticos em simultâneo com alças meleiras e fluxos de néctar é um cuidado básico. Dito isto…

    Não me parece sensato, nem rigoroso, afirmar ou pensar que os apicultores que tratam as suas colmeias com acaricidas sintécticos e que cumprem os protocolos de utilização dos mesmos, têm um mel de segunda classe quando comparado com o mel orgânico. Eu sei que o mercado o distingue e valoriza este último. Estamos, no entanto, no domínio das crenças. A ciência ainda nada disse de objectivo sobre isso. Os legisladores, entretanto, estabeleceram valores mínimos para a presença de certos componentes não naturais. E estes limites foram definidos com base na melhor ciência conhecida hoje. O conceito de “tolerância zero” aplica-se essencialmente a substâncias identificadas e com suspeita de possuírem propriedades carcinogénicas ou mutagénicas (Regulamento (CE) nº 37/2010). Por ex. o fluvalinato do Apistan e o amitraz do Apivar não fazem parte dos produtos incluídos neste grupo de substâncias. Afirmar mais do que isto é ser mais papista que o papa.

    Espero que os apicultores orgânicos tenham o bom senso de não andar a “manchar” a imagem do mel, fazendo afirmações excessivas e irresponsáveis acerca do mel em modo de produção convencional e dos “químicos” que ele pode conter. Esse não é o caminho. Pensem duas vezes e mais oito!

  4. Eduardo, eu entendo o que quer dizer. No entanto não concordo com tudo.
    Alertar as pessoas e ensiná-las a ser mais exigentes, a perguntarem os porquês de tudo, é um bom serviço na minha ótica.
    Outra coisa, prende-se com o facto de eu entender que essas substâncias tidas como seguras são já proibidas em alguns países mais desenvolvidos e com consciencia ecológica maior.
    Há ainda a questão das moléculas “alien” que são subprodutos das ligações químicas efetuadas entre moléculas seguras, mas que originam uma 3a molécula que é carcinogénica ou mutanogénica. Essas moléculas não sao detetadas em análises pois não são procuradas.

    Mais uma vez o meu dever está para com as pessoas e não para com o setor do mel. Não quero assustar ninguém, mas quero informar todos os que passem os olhos por estas linhas que vou escrevendo de que antes de comprar algo devem perguntar algumas coisas e perceber se quem lhes vende o produto tem conhecimento sobre o que está a fazer.

    Outros setores, nomeadamente o setor hortícola, sofre do mesmo mal, mas ainda de forma mais acentuada. Nos hortícolas 14% das análises deram positivo.

    Felizmente que cada vez somos mais a não usar produtos químicos. Somos cada vez mais e tornamo-nos cada vez mais produtivos ao usar técnicas que compreendem a Natureza.

    Ao dizer que as explorações maiores são porventura as mais seguras, e que esta nova vaga de apicultores fará mais e melhor, axo que é um sinal claro de que confio. Mas não posso deixar de alertar ou assobiar para o lado ao ver certas coisas.

    É possível que em 10 anos o paradigma nos aproxime dos países vanguardistas…assim queiramos todos!!

    • Tojo Serra diz:

      Já agora que produto usa para o tratamento à varroa?
      Obrigado

      • Não uso apenas um produto específico. As boas regras ditam que façamos os tratamentos com rotação dos princípios ativos existentes, por forma a evitar o aparecimento rápido de resistências da varroa aos mesmos. Assim, uso fórmico, oxálico, amitraz, timol e 1x a cada 4 anos fluvalinato. Uso ainda o corte de cria de zangão e colocação de enxames a nú!

  5. martinho ferreira diz:

    Olá Afonso,
    Continuo a ler com muita atenção o que escreve.
    Aproveito a oportunidade para lhe desejar a si e á sua família votos de BOAS FESTAS!

  6. Bernardino da Silva Gomez diz:

    Boa Tarde.
    Quando se fala nas grandes explorações ainda fico mais triste, não serão todas, mas a maioria onde está essa segurança, pois se vermos alguns vídeos que estão na net, refiro-me em maioria aos vídeos de apicultura nos estados unidos. para mim é um atentado a natureza, pois nós apicultores temos que ser amigos das abelhas não inimigos. Mas nos estados unidos fala mais alto a ganancia, o lucro. pois vemos colmeias a serem transportadas milhares de quilómetros, e serem colocadas em monoculturas, por isso não é de admirar que lá surjam novas doenças, pois estas abelhas são colocadas num alto stress e são exploradas até a exaustão. e pena ainda ver-mos estes vídeos,
    Para mim isto não é apicultura, mas sim uma vergonha.
    Abraço Dino.

  7. Eduardo Gomes diz:

    Afonso e citando as tuas palavras:
    “Outra coisa, prende-se com o facto de eu entender que essas substâncias tidas como seguras são já proibidas em alguns países mais desenvolvidos e com consciencia ecológica maior.
    Há ainda a questão das moléculas “alien” que são subprodutos das ligações químicas efetuadas entre moléculas seguras, mas que originam uma 3a molécula que é carcinogénica ou mutanogénica. Essas moléculas não sao detetadas em análises pois não são procuradas.”

    Relativamente ao Apivar, o acaricida que eu tenho utilizado predominantemente nos últimos 6 anos, em que países está proibido por se ter revelado maligno para a saúde humana? que moléculas “alien” são produzidas pelo Apivar? Quais são os estudos científicos, com controlo experimental, que suportam as tuas afirmações no que respeita à utilização deste acaricida na apicultura?

    Se me puderes fornecer esses dados fidedignos, concerteza que os irei ter em conta no futuro. Agradeço-te desde já toda a informação que vieres a disponibilizar a este respeito.

    Um Feliz Natal para todos!
    Eduardo Gomes (apicultor profissional desde 2009)

    P.S. Sr. Bernardino, tenho participado desde há algum tempo atrás num fórum norte-americano de apicultura, e o que me tenho dado conta é que os apicultores profissionais que por lá participam dos EUA, do Canadá, Austrália e Nova Zelândia, estão tão ou mais preocupados com a saúde e bem-estar das suas abelhas como nós estamos em Portugal ou na Europa. Maus e bons apicultores há-os por todo lado. Os gananciosos estão “bem” espalhados por todo o mundo. Os vídeos que o Sr. Bernardino tem visto (e que eu também já vi alguns) são a árvore que tapa a floresta. Não tomemos a parte pelo todo. Só nos fica bem esse rigor, na minha opinião.

  8. Obrigado Martinho! E um feliz Natal.

    Bernardino, pois há de tudo em todo o lado. Cá também há. Só que lá fazem-se mais vídeos.
    Nada tenho contra os indústriais, e há coisas que também não gosto de ver, mas que do ponto de vista de “Indústria ” Agropecuária tenho de aceitar.
    Para termos uma noção, há mais colméias em Portugal e Espanha que nos EUA. No entanto as colméias de lá geram 4x a 6x mais movimento económico.

    Eduardo, do Apivar a substância ativa é o amitraz. Esta substância é a que mais depressa se degrada e a menos persistente entre os acaricidas sintéticos. No entanto o ganho de resistência a este varroacida por parte da varroa é bastante rápido, pelo que não acredito que seja fazível usá-lo a “solo” durante anos e com sucesso.
    http://scientificbeekeeping.com/the-learning-curve-part-4-the-synthetic-miticides/
    Quando discutimos abertamente estes problemas, o objetivo final é apenas que se coloquem a nú os erros que cometemos sem nos darmos conta disso, afim que possamos melhorar e produzir algo que seja reconhecidamente de excelência.
    http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0067007
    Às vezes basta o método de análise ser melhor, e os resultados aparecem.
    Se Esta evidência não for suficiente para te trazer para o lado dos apicultores mais orgânicos, eu depois posso procurar nos GB de tralha apícola que tenho guardados para encontrar os estudos acerca das moléculas Alien de que falo e que ninguém no setor quer discutir por manisfesto medo da comunicação social.
    Quando o que devíamos fazer era internamente dentro do setor irmos educando os apicultores, afim de que um dia mais tarde ninguém nos possa acusar de termos omitido informação ou termos agido complacentemente.

    Mais uma vez chamo à baila o setor dos hortícolas e agropecuária em que a franja orgânica cresce, mas cujo comportamento geral do setor deixa muito a desejar, e em que transparece serem os orgânicos e mais vanguardistas o “peso morto” que todo o setor tem de acartar, ignorando ou tendando ignorar a evolução do conhecimento. No caso agropecuário o setor bovino mudou muito e para melhor aquando das ” Vacas Loucas” e da “Crise das Hormonas”. Mas o setor avícola e setor hortícola vivem com a cabeça enterrada na areia. E eu faço o que posso para que isto não ocorra no setor apícola.

    Fará para mim Meia década orgânico!! este ano, e nunca tive colméias tao fortes como tenho hoje. A curva de aprendizagem tem sido dura, mas largamente compensadora.

  9. Eduardo Gomes diz:

    Obrigado Afonso pela tua resposta e atenção aos meus comentários. Julgo que em grande parte se deve ao facto de ambos procurarmos ser cuidadosos nas afirmações que fazemos, estarmos munidos de dados rigorosos e confiáveis de acordo com a melhor ciência de hoje em dia. Julgo também que se deve ao facto de nos respeitarmos mutuamente, aceitando como normal que os nossos pontos de vista sejam concordantes em determinados momentos e discordantes noutros. Acima de tudo estarmos perfeitamente conscientes que no que respeita ao conhecimento das abelhas e seus produtos ainda só estamos a “arranhar a superfície”. Respondendo a alguns pontos interessantes que levantas:

    — resistência ao Apivar: o Randy Oliver é um apicultor/cientista muito respeitado nos EUA, e eu aprendi também a respeitar os seus pontos de vista há alguns anos atrás quando comecei a ler os seus magníficos textos no seu blogue. Contudo, algumas das suas afirmações sendo boas especulações, não deixam de ser especulações. Sobre a resistência ao Apivar um estudo experimental, com grupo de controlo, conduzido na Polónia, onde o Apivar se aplica há cerca de 30 anos, não encontrou resistências ao mesmo (ver http://www.degruyter.com/view/j/jas.2013.57.issue-1/jas-2013-0012/jas-2013-0012.xml). Eu só o utilizo regularmente há 6 anos e também ainda não encontrei resistências!

    — resíduos químicos nas abelhas, mel, pólen e cera: li o interessante estudo que remeteste e só vem reforçar a minha convicção: os químicos estão por todo o lado. Nos produtos da colmeia resultante de maneios convencionais e nos produtos da colmeia resultante de maneios orgânicos. Porquê? Porque, entre outras razões, os químicos estão no meio ambiente onde as abelhas vão colectar as matérias primas para “fabricarem” os seus excelente produtos. Não esquecer que a grande maioria, senão a totalidade, dos produtos alimentares que comemos, têm resíduos químicos. Porque deveria ser o mel diferente? Afonso quanto mais apertamos a malha de análise utilizada, quanto mais afinarmos os instrumentos utilizados para essas análise, mais vezes vamos encontrar estes resultados. Limpo, limpinho não há nada! A questão deve outra: tendo resíduos quais são os limiares que a ciência de hoje entende como sendo admissíveis (porque só há a ciência de hoje, a da amanhã ainda não existe, e tudo o que é dito fora deste quadro científico é especulação, podendo ser boa ou má, dependendo dos casos)?

    — Respondendo à minha questão, relativamente ao amitraz e seus metabolitos:
    1) O limite aconselhado da dose máxima ingerida por dia está estabelecido: 0.003 mg/Kg por dia;
    2) Dose de máxima de amitraz e seus metabolitos permitidos no mel: 200 µg/kg;
    3) Este valor, 200 µg/kg, representa 2% dose máxima aconselhada ingerida por dia;
    4) Dose de amitraz e seus metabolitos encontrados no mel 15 dias após o tratamento: 75 µg/kg.

    Os números e os dados que apresento em cima foram colectados de relatórios do Comité que regulamenta o uso de produtos veterinários da Agência Europeia de Produtos Veterinários. Estes relatórios estão acessíveis na net.

    Mais um dado científico da maior importância: nos mamíferos (humanos incluídos obviamente) o amitraz ingerido por via oral é rapidamente absorvido e expelido da maior parte dos tecidos em poucos dias.

    Em conclusão, dizer que alguns de nós somos mais papistas que o papa é estar a ser educado, na minha opinião.
    Um abraço,
    Eduardo Gomes (apicultor profissional desde 2009)

  10. Bernardino da Silva Gomez diz:

    Boa noite Afonso.
    Desejo-te um bom natal com muita saúde e felicidade. e que continues com esta disposição para nos aturar.
    P.S. Sr. Eduardo Gomes. Quando me referi a apicultura nos estados unidos , não queria ofender ninguém, muito menos meter todos os apicultores americanos no mesmo saco. mas falei por saber.Eeste ano passei um mês na Califórnia, e vi com estes olhos que a terra onde comer a miséria e o mau trato que dão as abelhas, incluindo na cresta, pois não foi capaz de ficar mais de 10 a ver tal vergonha. Se o que vi fosse aqui em portugal , a quantidade das abelhas mortas ao crestar, dava para fazer centenas de pacotes de abelhas. E mais as melarias deles são duma Higiene das melhores do mundo, para saber são de baixo de uma tenda em pleno campo. E mais digo, se eles se preocupam tanto com a saúde das abelhas porque deixam as abelhas apanharem com os pulverizadores que tratam as árvores, pesticidas e outros produtos químicos.
    Quando fiz esta viagem pensei que eria aprender alguma coisa, pelo contrario nada.
    Abraço Dino
    Não sou profissional mas tenho abelhas desde 1978.

  11. Olá Dino e Eduardo. Estas discussões que temos são imensamente interessantes. E penso que todos aprendemos com todos.

    O que não concordo na tua abordagem “Eduardo” é que, em nenhum químico de síntese usado até hoje, o problema da resistencia desapareceu.
    Depois, essas doses de que tanto se fala não são mais do que recomendações que muitas vezes vão sendo revistas com a evolução dos tempos.
    Se eu não posso controlar os químicos presentes no meio, mas posso controlar os que coloco ou não dentro da colméia de forma direta.
    Há a questão das tais moléculas de químicos diferentes que se unem, que geram uma terceira molécula mais complexa e geralmente mais difícil de eliminar enquanto resíduo. Este tipo de moléculas são ainda muito mal compreendidas, mas usando o princípio da precaução, mais vale prevenir que mais tarde remediar. E visto que os métodos que uso são tão simples, é-me difícil entender o porquê de se correr qualquer risco.

    Mas mais uma vez, e ao ver que és profissional, que és informado, preferia comer o teu mel do que o tal dos velhotes. Pois sabes justificar o que fazes e és consciente de cada passo.

    Voltando ao estudo, o mesmo refere-se a um período de tempo muito restrito. O ganho de resistencia mede-se numa década ou as x mais. Só que quando essa resistencia aparece é irreversível. Pois o canal que a provoca é de herditariedade dominante.

    A pergunta que eu faço é: Não seria mais interessante uma abordagem integrada com o uso dos acaricidas sintéticos reservado a situações de emergência? Do tipo “quando o apicultor parte uma perna” e tem de pedir a alguém para lá ir.

    E o preço? Eu trato as minhas colméias por menos de 1eur/colméia/ano…

    Penso não estar a ser nada Papista. Ser cauteloso e pedir uma abordagem cada vez mais formada por conhecimento é bom. Ser exigente é bom. Respeitando todos mas olhando para cima sempre é algo que nunca devemos cansar de perseguir. Eu não me canso de querer fazer melhor.

    O meu primeiro dever não é para com as minhas abelhas, é para com as Pessoas que recebem o que produzo. Só depois com as abelhas!

    Abraço!!

  12. Eduardo Gomes diz:

    O Sr. Bernardino em 22 /12 escreveu “Quando se fala nas grandes explorações ainda fico mais triste, não serão todas, mas a maioria onde está essa segurança… Mas nos estados unidos fala mais alto a ganância” … e em 23/12 escreve “não queria ofender ninguém, muito menos meter todos os apicultores americanos no mesmo saco.” São citações das suas palavras, Sr. Bernardino. Em que é que ficamos?

    Também há aspectos em algumas das empresas apícolas nos Estados Unidos que me repugnam. Não me parece é que este tipo de afirmações resolvam o que quer que seja. Podem até ser contraproducentes, e servir para limpar as consciências daqueles que noutros cantos do mundo também não estão a fazer grandes coisas pelas abelhas.

    Em 1978 já eu tinha 3 ou 4 crestas nas costas, a ajudar o meu pai. Mas isto não se mede por anos pois não? Os homens também não se medem aos palmos.

    Para o Afonso e para os colegas que se preocupam com uma discussão rigorosa acerca da apicultura: antes afirmei que o consumo médio diário aceitável para o Amitraz é 0.003 mg por kg. Por lapso não referi que este valor de 0,003 mg é por Kg de peso corporal, o que para uma pessoa com 60 Kg de peso dá um consumo médio diário aceitável de 0.18 mg. Sabemos que 1µg=0, 001mg. Portanto 1 Kg de mel, e de acordo com os dados apresentados anteriormente, tem no máximo 0.075gr amitraz por Kg. Para uma pessoa ultrapassar o consumo médio aceitável para o amitraz teria de consumir mais de 2 Kg de mel por dia. Infelizmente nenhum dos meus clientes consegue fazer essa façanha. Isto é que era vender mel : ). Infelizmente a média nacional de consumo de mel por ano e por pessoa anda muito abaixo de 1 Kg. Aqui sim, a FNAP podia e devia fazer mais pelo mel nacional. Promover o mel, as suas qualidades, o seu consumo. O mel nacional, em regra, é um produto de primeira qualidade (convencional ou orgânico) e devemos unir-nos e lutar na defesa e promoção daquilo que é nosso e que tem classe mundial. Andarmos com capelinhas (tipo o orgânico é melhor e o convencional é frito e cozido) não nos leva a lado nenhum, só nos fragiliza perante os concorrentes externos. Não é o mel que leva as pessoas para os hospitais e para a cova. Ou alguém de bom senso é capaz de afirmar o contrário? Só a minha opinião.
    Um Feliz Natal, com mais união entre os apicultores e mais alguma sensatez para o ano que se aproxima, são os meus votos!

  13. Eduardo Gomes diz:

    “em nenhum químico de síntese usado até hoje, o problema da resistencia desapareceu”
    Afonso a questão é ao contrário: a resistência ainda não pareceu. Nos Polacos ainda não apareceu e ao longo de 30 anos. E no meu caso ao longo de 6 anos ainda não apareceu também. E há mais estudos com grupo experimental e de controlo convergentes com estes. Tenho tido sorte, poderão pensar. Francamente não sei, talvez. Mas a sorte como dizia alguém dá muito trabalho. É preciso cumprir os protocolos. Construí o meu melhor calendário, coloco o Apivar em alturas de pouca criação no ninho, antes dos estragos começarem a ser feitos pela varroa. Coloco as duas tiras de acordo com o protocolo e tiro-as passadas 8 semanas. Não ficam lá a promover resistências. É fazer de acordo com o protocolo do produto, porque a roda já está inventada. Se nos pomos a inventar, nestas coisas como noutras, em regra dá mau resultado. Afonso e se e quando a resistência aparecer cá estou para lhe responder. Eu também sou resistente.

    Quantos aos limites de amitraz e seus metabolitos, para mim está tudo tão clarinho como a cor do mel de rosmaninho do Alentejo. Para mim chega-me, os meus clientes estão seguros! Que todo o mal deles viesse do meu mel! Viveriam mil anos! Sabendo que o maior tóxico que eu ingiro todos os dias é o oxigénio, que me oxida as células do corpo todas as vezes que respiro, que posso eu esperar mais desta vida, senão não dramatizar demasiado o que não é assim tão grave? Mas isso são coisas cá minhas.
    Um abraço!

  14. Eduardo, procurei um pouco e vou deixar-lhe aqui excertos de um estudo que me foi enviado por um amigo. Axo suficiente para que possa rever a sua opinião sobre o Amitraz. Sendo que como aplicador frequente o seu índice de risco é muito superior.
    C. TOXICOLOGY
    A DPR review of the toxicology studies on the effects of amitraz has identified adverse
    responses in human and animal studies. Central nervous system (CNS) effects in
    humans and dogs have been detected within hours of amitraz exposure. The effects
    seen in humans included paleness, dry mouth, drowsiness, disorientation, light headed
    feeling, slurred speech, and loss of consciousness. Toxic effects associated with subchronic
    exposure were indicated in a variety of studies. The most prevalent effects
    included decreases in body weight gain and abnormal CNS responses. The toxic
    effects of chronic exposure to amitraz included CNS depression, depressed growth
    rate, a reduction in food intake, hyperplastic nodules, and hyperkeratosis of the
    forestomach. Chronic exposure to amitraz has also been associated with oncogenicity.
    An increase in lymphoreticular, liver, and lung tumors has been reported in mice.
    Animal studies have indicated that amitraz is a potential reproductive toxicant while
    developmental effects were considered minor. Mutagenic potential was indicated for
    2,4-dimethylaniline (an amitraz metabolite) in bacteria and mammalian cells grown in
    vitro while amitraz exhibited mutagenic potential only in mammalian cells. Genotoxic
    potential was equivocal in an in vivo assay. In the mouse dominant lethal assay, one
    study produced positive results while the other resulted in negative data. For all other
    tests, amitraz was considered negative for genotoxic potential.
    F. CONCLUSIONS
    The toxicology data base for amitraz has indicated potential adverse effects in human
    and laboratory animal studies. Effects reported after acute exposure to the pesticide
    have generally been associated with the central nervous system. Studies have
    indicated that amitraz is a potential reproductive toxicant while developmental effects
    were considered minor. Chronic exposure to amitraz has been associated with an
    increased incidence of oncogenicity in mice. The genotoxicity data base indicates that
    amitraz and 2-4-dimethylaniline (a primary plant metabolite and an intermediate
    mammalian metabolite of amitraz) have mutagenic potential.
    Several occupational activities associated with the agricultural use of amitraz, and one
    population sub-group potentially exposed to amitraz through the diet, have margins of
    safety less then the values conventionally considered to be protective of human health.
    In these cases, mitigation should be considered to reduce potential exposure.

    Concordo completamente no que respeita à má politica que a FNAP tem. Concordo também que entre Amitraz, e os outros químicos de síntese, este é o menos mau.
    Não considero um risco para a saúde o seu uso em caso de emergência, e usado dessa forma não coloco qualquer objeção ao uso do mesmo.
    No entanto axo que existem opções mais isentas e inócuas. Com a mesma ou maior facilidade de aplicação. Mais baratas ou de custo semelhante. Daí não existir qualquer motivo para que existam resistências a esta mudança.

    Concordo quando diz que o mel é um produto seguro. Axo que o é! Sobretudo se o compararmos com outros produtos da mesma categoria alimentar. Isso não implica na minha opinião que nos devamos acomodar à situação. Mas sim que devamos procurar o que de melhor se faz, juntarmo-os a essa franja, e se possível um dia mais tarde, sermos considerados um setor exemplar.

    Costumo dizer que a reputação demora toda uma vida a construir, mas apenas 1 minuto a ser destruída. E ao querermos o melhor apenas, estaremos à partida a limitar bastante potenciais ataques a essa reputação. Além disso estamos a dar um salto qualitativo no sentido correto.

    Um Sr. Apicultor de 75 anos que conheço e é tão ou mais vanguardista do que eu disse-me no ano passado “eu só estou velho por fora, pois por dentro continuo um jovem de 20 anos”. Considero esse apicultor como sendo da minha geração.

    O desafio que lhe lanço é no sentido de, experimentar tb este salto para as moléculas mais simples “ácidos orgânicos”, e métodos biotécnicos. São tão simples de usar!

    Que tal?

  15. Bernardino da Silva Gomez diz:

    BOA TARDE
    SR. Eduardo Gomes
    SE o ofendi peço desculpa, o que queria dizer é que aqui em portugal tratamos as abelhas como em nenhuma parte do mundo.
    Abraço.

  16. Eduardo Gomes diz:

    Sr. Bernardino fique descansado. O meu amigo não me ofendeu de forma alguma. E concordo que em Portugal, na generalidade, tratamos as nossas abelhas muito bem! Um Santo Natal para o Sr. e sua família.

    Afonso, a diferença entre um medicamento e um veneno são as quantidades dos seus princípios activos. Nada referes quanto às quantidades que estão ou não em questão no excerto que nos apresentas. Manda-me por favor o link do estudo.

    Volto a reforçar uma ideia que já escrevi em cima: nos mamíferos (humanos incluídos obviamente) o amitraz ingerido por via oral é rapidamente absorvido e expelido da maior parte dos tecidos em poucos dias.

    Por enquanto estou a pensar continuar a utilizar o Apivar. Tudo o que sei acerca da utilização do Apivar nas minhas colmeias me dá 100% de confiança no mel que estou a vender e no seu carácter completamente benigno para a saúde dos meus clientes. Por outro lado, a eficácia do Apivar é enorme, pelo menos no meu caso (e também nos diversos estudos que consultei), o que também me dá uma enorme tranquilidade acerca da saúde das minhas colónias. Outras opções talvez sim, mas… como apicultor que no próximo ano, correndo tudo normalmente, conto atingir as 550-600 colónias não vejo como fazer 3 ou 4 tratamentos de inverno, como me pareceu que tiveste que fazer. Mas para mim a maior dúvida está nos procedimentos de contagens de ácaros associadas a estes procedimentos e dos erros de medição que lhes poderão estar associados. Há imensos documentos acerca dos erros de medição e das extrapolações erradas que os apicultores fazem das contagens de ácaros. A falta de consenso é enorme. Os limiares que permitem decidir entre tratar e não tratar são difíceis de definir. Os que me parecem mais informados dizem inclusivamente que estes limiares são locais. Isto é, os limiares que podem funcionar para ti, na tua zona, com o teu tipo de abelhas poderão, e à partida serão, diferentes dos meus, na minha zona e com o meu tipo de abelhas. E o gasóleo gasto? E a poluição do ambiente com a queima do gasóleo para fazer os tratamentos? E enquanto a varroa fica ou não fica KO nos meus apiários, de que forma e em que quantidade poderei estar a contaminar os apiários dos meus vizinhos? As medidas que cada um de nós toma e os seus impactos têm de ser medidos em toda a sua extensão.
    A minha linha de acção para o futuro são desenvolver, se me for possível, linhas de abelhas resistentes/tolerantes à varroa. Para mim este é o verdadeiro e único meio orgânico que conheço para combater a varroa. Mas sobre isso já falámos.

    Afonso quando te for oportuno manda-me esse artigo para que eu possa confirmar os teus temores. Se eu confirmar que tens razão, a primeira coisa que farei será enviá-lo ao Comité Europeu de Veterinária, composto por vários especialistas europeus, e que definiram os limiares de amitraz no mel, para que eles revejam o erro grosseiro que cometeram. Muito me custa a acreditar que tenham cometido erro tão grosseiro. O segundo passo será naturalmente deixar de utilizar o Apivar. Outras alternativas estão felizmente ao meu dispor e ao dispor de todos.

    Vamos ao bacalhau, às couves e batatas cozidas, bem regado com azeite nacional, acompanhados pelo vinho da nossa terra, que é dos melhores do mundo, e sem pensar nos metabolitos que por lá possam estar.

    Uma boa consoada e um Natal muito alegre para ti e para a tua família. Agradeço-te do fundo do coração, esta oportunidade que me dás de expor as minhas ideias.
    Eduardo Gomes

  17. Obrigado Eduardo e votos tb que tenha sido uma noite feliz!

    Já enviei via e-mail o que pedes.
    A redução que o estudo pede não está quantizada. Até porque muito nestes temas é território novo, sendo essa mais uma razão para cautelas e caldos de galinha. Só não te envio o estudo das moléculas que forma com os resíduos de comuphatos e fluvalinato presentes nas ceras, pois axo estar noutro pc.

    Quanto ao controlo de Varroa, este outono foi o mais difícil de sempre desde que tenho abelhas. Pois as flores e os zangãos nunca paráram de Março a Novembro. O que dificultou bastante. Agora estão limpas e lindas.

    Mas sobretudo para quem tenha abelhas na zona interior, ou montanha, é extremamente simples o controlo da varroa. E se bem feito implica apenas 3 viagens anuais ao apiário, em que 2as delas são as mesmas que usamos nas inspecções regulares. Ou seja, o custo acrescido é de apenas 1a viagem. Abaixo do Amitraz, pois por esta via não necessitamos de ir retirar tiras.

    Quanto às resistências, com todos os acaricidas as coisas funcionam bem até deixarem de funcionar. O Apicultor vai confiando cegamente e um dia tem um grande desgosto.
    Independentemente do método de amostragem utilizado, o importante é que nos sintamos confortáveis com ele, ganhemos experiencia com o mesmo e aprendamos as suas virtudes e defeitos.

    A minha opinião continuará no sentido de evitar tudo o que possa ser evitado em termos de tratamentos. Garantindo tb que no caso de uma emergência a “bomba atómica” seja eficiente.
    O fluvalinato foi usado até à exaustão, sem rotatividade, e aguentou uma década. Mas hoje, e independentemente de pausas de 2 ou 3 anos, ali junto a Rio Maior (exemplo)40% das colméias tratadas com ele em Out 2013 não chegáram à primavera,e as que chegaram nunca foram colméias fortes a tempo e horas. Com o Amitraz é só uma questão de tempo até ocorrer o mesmo, pois a forma de acção é semelhante, o tamanho da molécula é relativamente grande e sobretudo complexa. Tem de ficar várias semanas na colméia. Tudo isto são desvantagens.
    A única razão pela qual demora mais um pouco a criar resistências é porque se degrada mais depressa que o Fluvalinato e que o Comuphatos. Assim o seu resíduo acomulado é bastante menor e o contacto entre àcaro e acaricida em dose sub-letal está mais restrito no tempo.

    Deixo-te outra informação sobre resistência ao amitraz ja dtetada na Argentina em 2010 http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20668878

    E sim, concordo totalmente que o caminho de abelhas resistentes é o que irá ser seguido em 10 anos, juntamente com a desorientação do àcaro através de hormonas que influenciem o seu comportamento reprodutivo atraindo-o a armadilhas e outros métodos biotécnicos.
    Como disse anteriormente, o Amitraz é o menos mau dos acaricidas sintéticos, e se tivesse de um dia escolher um para usar, seria esse. Mas podendo viver sem eles, parece sempre melhor opção, sobretudo pois não é assim tão difícil.
    Ja entrei no 5º ano, tenho menos colméias mas tem sido sempre a crescer e estão quase 130, sem precisar deles, esperando este ano atingir as 200, e com objetivo crescente a cada ano até achar que as costas não deixam mais.

    🙂 Abraço

  18. Eduardo Gomes diz:

    Vou focar-me primeiro na questão mais importante desta nossa conversa: estarão os consumidores de mel de colmeias tratadas com Apivar, e de acordo com os protocolos definidos, a correr algum risco de saúde?

    Vou utilizar os dois estudos que tu referiste para responder a esta questão e vou utilizar os números desse estudo. Como já disse antes ir além destes números é especular, amedrontar as pessoas e estar a fazer um péssimo serviços à apicultura nacional.

    Começando pelo estudo americano e que ontem ainda encontrei na net. Vejo depois de uma análise das cerca de 70 páginas que não é um documento dedicado ao caso de mel. No entanto ao longo do mesmo há algumas considerações muito interessantes e que nos podem ser úteis nesta troca de argumentos. Na pg. 14 do dito documento refere-se um estudo experimental (duplamente cego, portanto dos mais fortes designs experimentais), em que um conjunto de indivíduos foi injectado com doses relativamente elevadas de amitraz (0.0625 mg/kg, 0.125 mg/kg). As conclusões são: não surgiram alterações no ECG; o sangue e urina não apresentaram sinais de terem sido afectados com base nas análises feitas; a resposta da pupila e a performance psicomotora não foram efectadas.

    Confrontando com a média anual de exposição ao amitraz na população dos EUA através do consumo de peras, leite, sementes de algodão, aves domésticas e mel, que é de 0.22 µg/kg/dia, facilmente chegamos à conclusão que os testes experimentais utilizarem doses muito superiores aquelas que o consumidor comum é exposto. Mais, na p . 39 refere-se outro estudo científico que ralata que 82% do amitraz é excretado na urina após 72 horas.
    Ainda nesse estudo (pgs. 67,68 e 69) uma breve referência é feita ao mel e aos seus níveis de tolerância que foram definidos pelas autoridades dos EUA: 1,0 ppm (isto é, 1 mg por Kg de peso do consumidor). De acordo com as recomendações deste estudo os consumidores (com uma média de 60Kg de peso) de mel não devem estar expostos a mais 60 mg/dia pelo consumo de mel (o estudo é de 1995).

    Anteriormente apresentaste outro estudo (http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0067007)
    que revelava que existiam resíduos de amitraz no mel, entre outros produtos da colmeia. Vamos focar-nos no mel. Refere esse estudo que a concentração mais elevada de amitraz encontrada foi 116.10 ng/g. O que significa este valor? Sabemos que 1 ng=0,000001mg. Foram portanto encontrados resíduos de amitraz iguais 0, 00116mg/g de mel nesses estudo. Convertendo em Kg: 0, 00116mg/g= 0, 00000116mg/kg.

    Sabemos que a legislação actual na Europa (peso médio 60 Kg) tolera como inócuo para a saúde publica um consumo até 0,18 mg/dia de amitraz nos variadissimos alimentos da sua dieta, sem que coloque em risco a sua saúde.
    Cruzando os dois valores: 0, 00000116mg/kg de amitraz encontrados no estudo que tu referiste com os valores limiares aceites na UE como inócuos para a saúde humana, e fazendo as contas: 0,18 / 0,00000116= 155 172 Kg. Isto significa muito simplesmente: um consumidor de mel teria de consumir 155 172 Kg de mel por dia para chegar ao limiar de segurança definido pelos melhores especialistas europeus e mundiais como inócuo para a saúde humana.

    Repito para que não fiquem dúvidas: um consumidor de mel teria de consumir 155 172 Kg de mel por dia para chegar ao limiar de segurança considerado inócuo para a saúde humana.

    Afonso relativamente à resistência ao Apivar vou deixar essa nossa conversa para mais adiante, até porque só consigo ver o abstract do estudo que referes. Será interessante que a nossa conversa tenha todo o rigor possível, e que a tua resposta (caso a desejes dar) a estes dados que eu apresento, e com bases nas tuas sugestões de leitura, se passem a fazer com base em números. Que números tu tens para concluir que as pessoas que consumam mel de colmeias tratadas com Apivar e de acordo com o protocolo, estão a colocar a sua saúde em risco? Esta solicitação é para o bem de todos, para que nenhum de nós deixe no ar a imagem que está a vender “banha da cobra”, ou que não lê cuidadosamente as referências que apresenta. Se desejares responder apresenta-me os teus cálculos, por favor. Só uma sugestão, que espero que aceites, para manter esta conversa “saudável” e sem resíduos.

    Continuação de um Bom Natal para todos.
    Eduardo Gomes

  19. Eduardo,
    Os números que são apresentados são de facto coerentes. E sim, concordo absolutamente que o perigo para a saúde humana através do consumo direto de mel oriundo de colméias tratadas com amitraz é à luz dos conhecimentos científicos de hoje é nulo. Como disse anteriormente, não está no mel o mal.

    No entanto as recomendações dizem que esses limites deveriam ser revistos. Não dizem em quanto, nem como.

    Ao facto de serem excretados ao fim de 72h 82% do amitraz. Significa que 18% são provávelmente absorvidos pelo nosso organismo. Sei que é uma ninharia em quantidade, comparada com o que provávelmente traz um prato de sopa. Mas pelo sim pelo não prefiro evitá-lo.

    Os limites máximos diários são recomendações apenas. Muitos outros produtos que ingerimos podem ter também resíduos, nomeadamente a fruta ou cereais. A nós apicultores cabe-nos apenas fazer a nossa parte. Cautelas nunca são exageradas, sobretudo existindo alternativas de fácil uso.
    É frequente que leis e recomendações sejam alteradas e no mundo dos químicos então muito tem mudado e continuará a mudar na minha opinião. O que hoje é seguro, amanhã não é. E só faz bem a um setor se nos guiarmos pelas melhores práticas possíveis, e o uso de qualquer que seja o químico lipossolúvel são hoje a prática mais corrente, mas não são de forma alguma a melhor prática utilizável.

    Quando falo em motivo de precaução, digo-o como base em que nós apicultores temos já esse conhecimento para usarmos todo, em que possamos incluir tanto a questão da segurança alimentar, do ganho de resistências pelo àcaro, da perigosidade para o aplicador no mesmo pacote.

    Ao dar o exemplo do fluvalinato (que está mais estudado), surgem dados que apontam que a toxicidade do mesmo possa ser multiplicada 10X para as abelhas quando em contacto com outros químicos, quer sejam eles fungicidas ou acaricidas. O mesmo se deverá aplicar com os restantes compostos, os quais por não serem estudados nos deixam sem dados. E para nós talvez se passe o mesmo. Não sei, e prefiro jogar à defesa por esse motivo.

    Não te envio o estudo completo feito na Argentina pois é pago, e só sobra o abstract. O Randy escreveu este ano um excelente texto com os seus cálculos e notas.
    http://scientificbeekeeping.com/amitraz-red-flags-or-red-herrings/
    Em que explica muito melhor do eu conseguirei algumas das preocupações de que também comungo, inclusivamente o das resistencias, efeitos sub-letais, propensão aumentada para nosemose, etc…
    Tal como ele, eu não descarto o seu uso quando necessário. Mas até hoje nunca necessitei, mesmo residindo provávelmente na àrea geográfica de Portugal Continental em que maior dificuldade há em controlar a varroa.

    E garanto que não faço isto para ser diferente, mas por ser relativamente fácil, muito barato e porque as minhas ceras saem limpinhas. Mas sobretudo porque não existem questões por desvendar sobre os àcidos e são moléculas tão simples.

    Abraço 🙂

  20. Eduardo Gomes diz:

    Afonso obrigado pela tua honestidade intelectual de confirmares aquilo que os dados apresentados nos dizem de uma forma tão evidente: o mel de colmeias tratadas com Apivar, e de acordo com o protocolo de tratamento, não traz risco absolutamente nenhum para a saúde humana.

    Vamos admitir que os limiares da legislação actual na Europa (fruto de um trabalho aturado realizado por especialistas europeus) e que estabelece como inócuo para a saúde de um consumidor médio com 60 Kg de peso, um consumo até 0,18 mg/dia de amitraz nos variadíssimos alimentos da sua dieta, sem que coloque em risco a sua saúde estão mal calculados.

    Vamos fazer um exercício teórico, mas que me parece clarificador. Vamos dividir por 10 o limiar de consumo diário de amitraz (dividir por 10 é um valor elevadíssimo) e o valor de Kgs de mel necessários consumir para atingir esse valor. Os cálculos são simples felizmente: 0,18/10=0,018 mg/dia; 155 172 Kg/10= 15 517 Kg. Dividindo por 10 o limiar considerado para o consumo de amitraz/dia os consumidores ainda teriam de consumir 15 517 Kg de mel por dia. Se o Comité Europeu tivesse que rever as suas propostas nesta ordem de valores (dividir por 10 o limiar anteriormente estabelecido) só pode significar uma coisa: os especialistas que definiram o actual limite só poderiam esta sobre o efeito de fortes alucinogenicos quando estabeleceram esse limite.

    Mas vamos dividir por mil (aceitando que os especialistas possam ter tido em conjunto um ataque psicopático de origem desconhecida e nos quisessem matar a todos), e mesmo assim os consumidores teriam de consumir 1,5 Kg de mel por dia para ultrapassarem o novo limiar.
    Parece-me que quanto à questão da revisão dos limiares, que tu julgas que poderão ser redefinidos estamos esclarecidos.

    O princípio da precaução é um bom princípio na minha opinião. Mas como todos os bons princípios têm de ser utilizados com proporcionalidade e de forma ajustada à realidade. O princípio da precaução, no limite, pode levar-nos a pensar que o melhor que podemos fazer é não nos levantarmos da cama todos os dias, porque o céu nos pode cair em cima lá fora. Mas cada um com a sua mania. Vive e deixa viver é outro princípio que eu muito aprecio. Não me intrometo com os orgânicos, e espero que os orgânicos não se intrometam com a minha opção, alimentando fantasmas.

    Quanto aos outros produtos da dista alimentar nada sei. Portanto calo-me. Sei do meu mel e chega-me.
    Quanto ao fluvalinato desconfio que as coisas não sejam como tu dizes. Deixo no entanto essa questão para quem trate com Apistan de uma forma regular, se assim alguém o entender. Eu trato com Apivar, e é este o produto que eu conheço bem. Procuro não falar daquilo que não conheço.

    Relativamente às resistências ao Apivar, sigo aquilo que a minha experiência me diz. O estudo que eu apresentei dos polacos (e outros mais que poderia ter apresentado) estão na net e em formato aberto para quem os quiser consultar.

    Relativamente ao link do Randy Oliver, são boas especulações. Mas não deixam de ser especulações. O alvo dele não é o Apivar, é o Tactik e a sua utilização descontrolada.
    Um abraço,
    Eduardo Gomes

  21. Obrigado Eduardo pela saudável discussão que aqui temos mantido.
    Penso que no final todos os que se derem ao trabalho de a ler ficarão pelo menos a conhecer muito melhor as nossas preocupações e cuidados. Bem como ficarão com uma idéia mais nítida sobre o que podem usar e como.

    O meu maior medo também são as mezinhas mal calculadas e os apicultores que nao respeitam as boas práticas por desconhecimento.

    E fico a aguardar o que pensas das raínhas da cantábria.

    Aqui as abelhas estão num boost fabuloso, e se Fev chegar com temperaturas agradáveis e hajam zangãos, iniciarei desdobramentos. Hoje vi a minha 1a raínha a subir ao sobrenihno Lusitano. Pelo que tem pelo menos 8Q de cria no de baixo. E por isso ando feliz com elas…pena nao serem todas assim! Mas a maioria está já no 6ºQ de cria.

    Abraço.

  22. Eduardo Gomes diz:

    Eu também te agradeço a possibilidade de construirmos algum conhecimento em comum. Os fóruns portugueses de apicultura, que deveriam ser os espaços dedicados para estas conversas, estão moribundos. Em Portugal temos neste momento um conjunto de apicultores que procuram através do seus blogues estabelecer a comunicação com a comunidade apícola. O teu é seguramente um de dois que eu mais frequento neste momento.

    Quando tiver novidades da cantábria serás o primeiro a saber. Por falar em rainhas procuro fornecedores credíveis que me possam fornecer algumas fecundadas para o inicio de março para os desdobramentos que tenciono fazer por essa altura. Se conheceres alguém manda-me por favor os contactos para o meu e-mail.

    Força e boa sorte com o teu “gado”.
    Eduardo Gomes

  23. Miguel Miguel RM diz:

    Boas Afonso deixa-me fazer-t uma pergunta para alguém como eu que tem “medo” mas ao mesmo tempo necessidade de abandonar os sintéticos não só pelos preços mas por tudo que tenho ouvido falar sobre eles, qual o leque de produtos biológicos me recomendarias para levar a cabo uma campanha apícola desde a cresta ha Primavera seguinte, quantas aplicações? Quantos produtos/tecnicas estão ao meu alcance? Pois eu estou a começar e se sentir segurança nos biológicos vou por ai… Se é mais barato e melhor porque tanta resistência por parte dos apicultores? Qual é o medo? Qual é a duvida obrigado

    • Olá Miguel,

      A primeira coisa que te aconselho a fazer é dedicares 1 dos apiários no 1º ano, afim de arriscares pouco enquanto estás na curva de aprendizagem. Se possível o que estiver mais perto de casa.
      O 2º passo é iniciares isto na primavera, entendendo que o período crítico é a floração de tágueda caso a tenhas, e que nessa altura deves ter as abelhas tão limpas quanto possível.

      1º – Primavera – Ao sinal de branqueamento de ceras Substituis 1Q de ninho por 1Q velho e sem arames na posição 3 apenas com uma tira de cera estampada.
      Depois se fizeres inspecções quinzenais de primavera verás que elas puxam tudo além da tira com zangãos. Assim que vires a maioria operculada, cortas, deixando novamente a tira de obreiras afim de que elas puxem novamente zangãos. Antes de fechares a colmeia espremes 1 limão sobre as abelhas do ninho. Assim que o zangão voltar a estar puxado e selado repetes o processo e mudas o quadro para o centro do ninho.

      2º – Na cresta de verão, bates todas as abelhas das meias alças (de cada colmeia) para dentro de 1 nucleo. Em vez de o fazeres para o chão.
      Do ninho retiras 2Q de cria selada e 1Q de reservas (sacudindo as abelhas para dentro do ninho afim de que a raínha fique), completas os 3q em falta com 2Q de cera puxada e 1Q por puxar. Com isto acabaste de retirar uns 50% das varroas da colmeia e a fazer um núcleo que irá obrigatóriamente para outro apiário. Na colmeia que fica com 7Q podes tratar de 3 formas distintas (com fórmico se temperatura menor a 30ºC/com 30ml de sumo de limão sobre as abelhas/ com solução de oxálico a 3,5%/ou ainda com óleos Naturais se tiveres dentro do assunto)
      Antes de fechar a colmeia metes 1saco de fondant inteiro, para compensar a doação do enxame e retirar stress à colmeia.
      O núcleo que foi embora, leva ao final da tarde ou dia seguinte 1 alvéolo real. Passados 14 dias é tratado com solução de 3,5% de àcido oxálico.

      Até fim de Setembro está terminado o trabalho.

      Pela flor da tágueda há que tratar. E com temperaturas outonais e muita cria, devemos 1º avaliar a taxa de infestação tirando amostras de abelhas ama. Depois de isto feito, e se for baixa a infestação, tratamos com fórmico já com o fluxo a meio (2 tratamentos flash).

      Antes de Novembro entrar, tira-se novamente amostras.
      Se tiveres a sorte de estar numa zona onde elas páram postura, então é muito fácil. Assim que elas pararem e terminar a cria selada…4ml de xarope de oxálico a 3,5%/quadro ocupado e via gotejamento. E não devem sobrar varroas dentro da colmeia para jogar à Sueca.

      Tão importante como tratar é ter sempre população abundante. Na minha zona rica em pólen e pobre em néctar consigo isto gastando 1 saco de fondant no verão e 1 saco em Novembro. São os 6eur melhor empregues e que garantem colónias a entrar o ano a rebentar pelas costuras, pois não tocam nas reservas até meio de Dezembro.

    • Caro Miguel, antes de mais peço desculpa entrar na vossa conversa. Estou na apicultura (dedicado) desde 2009 e nuca usei tratamentos que não sejam biológicos. Não tenho mais mortandade (inverno) que os demais e mantenho o número de colmeias (500) ano após ano com uma média de produção/anual habitual. Não deves ter medo. De que zona és?

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