Aos novos Apicultores e aos Sonhadores!

Este ano tenho sido abordado por diversos apicultores que começam a atividade.

Assim, resolvi publicar algum do aconselhamento que lhes dou,

1 – Alguns apicultores chegam junto a mim pois querem submeter um PDR2020, uns com experiência e outros sem. Em comum têm muitas vezes o mesmo sonho que eu tive alguns anos atrás. Mas muito poucos conhecem realmente as despesas envolvidas numa apicultura profissional, mesmo uma de baixo custo e não transumente como a minha. E é por estes apicultores que começo, pois é neles que o potencial desastre é maior, pois implica gastarem as economias de uma vida, anos preciosos dessa mesma vida e muitas vezes créditos!!

Assim, se vão fazer um destes projetos com base em dinheiro emprestado…desistam antes de começar. Se o vão fazer com o dinheiro contadinho e à justa, sem uma almofada financeira de pelo menos 20 000Eur e capacidade de sobreviverem 2 anos sem lucros…desistam antes de começar!!

Como devem fazê-lo?

A – É imperioso terem um efetivo construido por voçês, sendo apicultores que tenham conseguido aumento de efetivo em pelo menos 3 anos consecutivos e produzido algo de visível pelo meio.

B – Precisam de pelo menos 50 colmeias já próprias, precisam de depois adquirir 50 bons núcleos (mesmo se mais caros valem bem mais a paena serem bons e bem povoados cedo na Primavera), precisam de ter já garantido o poiso para pelo menos 10 apiários, precisam de estar preparados para imprevistos e viverem bem com “morte” as vezes em escala épica!!

C – Têm de ter a noção de que sozinhos podem tratar umas 350 colmeias e uns 100 núcleos, mas que depois só compensa ter um projeto maior que pague a um trabalhador se passarem o limiar das 550 colmeias e 150 núcleos

D – Mesmo sozinhos as vossas despesas anuais serão de 12 000Eur/ano, sim, 1000Eur por mês (seg social, seguros, carro, contabilidade, fatos, luvas, contabilização de renovação de madeiras e máquinas com desgaste a 10%/ano, tratamentos, alimentação das colmeias, eletricidade, materiais de limpeza e escritório, ajuda na cresta, enfim…)

Contas feitas, vendido a granel são 4 000Kg de mel que têm de produzir apenas para as despesas..ano após ano…todos os anos!

E – Antes do romance se tornar verdadeiro façam as contas bem feitas!!, e só depois dêm asas aos sonhos. Estejam preparados para 3 meses de férias, mas nos 9 meses que restam trabalharem por 15 meses.

2 – Aos que iniciam a atividade e querem ser apicultores em part-time, o mais comum de ocorrer é o impulso de aumentar, aumentar, aumentar (chama-se em calão “tesão do mijo”). Mas depois já têm 50…60…100 colmeias e caem na real de que não sabem produzir, de que nunca tiraram uma colheita a sério de mel, de que já não vendem tudo o que produzem aos vizinhos. Há uma mudança de vida (nasce um filho, aparece uma companheira/o, mudam de trabalho, aparece um novo hobby) e todo aquele investimento esfuma-se!!

Geralmente quando os aconselho a terem cerca de 12 colmeias e 3 a 5 núcleos…abanam com a cabeça a dizer que sim, mas vejo nos seus olhos passarem as imagens de pelo menos 50 colmeias com 10 alças cada uma em cima. E alças em cima das colmeias ficam lindas!! mas tenho aberto imensas colmeias com alças vazias…que quem vê de fora não nota! ou cheias de cria até ao telhado, mas sem mel, ou com abelhas nas alças mas o ninho a fazer de auto-estradas, ou mesmo com realeiras até ao telhado.

Assim, a esses apicultores, que façam 2as lindas bancadas…talvez 3! Comprem 5 belos núcleos e sozinhos os levem até terem as 3 bancadas ocupadas. Depois percam mais um par de anos a aprenderem a produzir, pois esses núcleos proporcionaram um rendimento extra e enxames para substituir colmeias e raínhas problemáticas. E sozinhos entam realmente o que podem 12 colmeias produzir. Enquanto estes 5 anos duram a “tesão do mijo” passa e o apicultor com o seu cantinho de garagem aprendeu o suficiente para tomar decisões de aumento ou manutenção de efetivo de uma forma muito mais consciente, sem ter gasto mundos e fundos, sem ter comprometido nada da sua vida pessoal e dedicando aquele par de horas a cada 15 dias ao seu hobby.

Portanto ao ler este post, evita boa parte dos erros…quase de certeza que ou é este tipo de apicultor ou já o foi!!

3 – Falta aqui o outro tipo de apicultor, o que começou logo a saber tudo, que apanhou enxames a torto e direito, que nao sabe produzir nada e antes do saber deixou morrer boa parte dos enxames…

Parte destes apicultores desiste, outra parte continua a cometer o mesmo erro ano após ano, outros há que vao aprender num curso rápido de 2 ou 3 dias a manter as abelhas vivas e no ano seguinte são já mestres apicultores (segundo eles próprios) e há uma franja deles que eu aprecio muito que são os que realmente entendem a asneira e então decidem ir aprendendo e paulatinamente tornarem-se apicultotores a sério.

 

 

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Sobre abelhasdoagreste

Jovem, apicultor apaixonado e que comercializa inovação apícola.
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15 respostas a Aos novos Apicultores e aos Sonhadores!

  1. Eduardo Gomes diz:

    Pois é Afonso, esta é a realidade, e talvez até um pouco benevolente num ou noutro aspecto. Claro que os projectistas dos PDR e dos Proder que nunca tiveram uma colmeia contam uma outra história/ficção aos jovens agricultores candidatos a projectos profissionais de apicultura.

    • apibeiras diz:

      Infelizmente os projetistas dos PDR e PRODER contam essa história/ficção a muitos Agricultores, não só Apicultores. Depois na TV aparecem os 2 ou 3 que tiveram sucesso, muitos deles nem vivem do projeto, no entanto esquecem-se de mostrar os 97 que não tiveram sucesso, numa razão de 3/100, claro…

  2. Paulo JMD Silva diz:

    São estas tuas entradas no teu blog que realmente são úteis e podem até evitar que os mais sonhadores se atirem de cabeça para a apicultura.

    A apicultura está na moda e muitos formadores não conseguem ou não querem passar a mensagem de que não é fácil nem é uma atividade para qualquer pessoa.

    Gostava de ver mais textos como esse que aumentam a importância e utilidade do teu blog (sei que o tempo é pouco e o trabalho é muito mas vale a pena um esforço extra).
    Abraço

  3. apibeiras diz:

    Podes retirar do título a palavra: “Novos”. São cada vez mais os “velhos e experientes” apicultores a viver essa realidade, infelizmente… Muitos viveram mais de 20 ou 30 anos com 100 colmeias no máximo, com boas produções e sabendo como trabalhar. Depois impulsionados (erradamente na minha opinião) duplicaram ou triplicaram o efetivo e o fracasso apareceu…

  4. Hugo diz:

    Na apicultura 1+1 nunca são 2. Estou nisto à 4 anos e já percebi que estamos sempre a aprender com as abelhas, elas são as nossas professoras, não é num dia ou dois que se aprende a sua linguagem, estamos ainda aprender e com as alterações climáticas esta aprendizagem torna-se mais difícil. Se para profissionais está dificil quanto mais para amadores.

    Não tenho nenhum projecto, elas as abelhas é que me vão ensinar se o meu próprio projecto cresce ou não, com calma.

    Grande conselho Afonso que deste a quem se está a tentar meter numa alhada!!!

    P.S devias enviar este artigo para publicação nalgum jornal nacional.

  5. Obrigado a todos pelos comentários e interesse!
    De facto a realidade que conheço é de que a taxa de sucesso em PDR’s ou equivalente ronda os 40%, algo que quer dizer que por cada 10 sonhos há 6 fracassos e 4 sucessos. Assim, seria de máxima importância que tanto promotores de projetos, apicultores, estado e UE apoiem sim, mas apoiem bem, com o seguimento necessário e os candidatos que são realmente capazes, ao invés de usarem uma folha de exel e as contas do promotor para aprovar ou não.
    Penso que em qualquer tipo destes investimentos, o proponente deveria trabalhar 1 ano com um profissional, mesmo que fosse subsidiado no valor de 1 ordenado mínimo…após este momento teria uma rede de conhecimentos e experiência muito útil que lhe serviria imenso.
    No meu caso entrei no projeto com experiência, mas hoje, perto da conclusão do mesmo, teria feito boa parte das coisas de modo diferente e considero ser hoje muito mais capaz de executar um projeto do que quando iniciei.

    Era muito bom que a taxa de sucesso real duplicasse. Pois penso que os responsáveis subestimam muito esse sucesso.

    No meu caso equaciono mesmo quando terminar de executar o meu projeto em adquirir ou fazer parceria com alguém que tenha falhado e queira tentar novamente. Geralmente os que falharam estão no fim da falha bastante bem preparados e muitas vezes já não têm a capacidade financeira de tentar novamente.

  6. eusebio diz:

    olá Afonso e tu estás aconselhar o pessoal que a apicultura ainda não é o que se pensa porque esta malta nova pensa que é só por as abelhas nas caixas e está a andar ai no sul aqui no norte como ves ainda para nos ajudar mais um pouco temos esta rica prenda chamada de aziática que nos tem dado grandes dor de cabeça e horas perdidas

  7. Eusébio, aqui está a chegar dentro de um par de anos tb. Até ao fim da década deve estar em Lisboa.
    Penso que criar estratégias de viver com elas é o que teremos de fazer. Tal como sermos crescentemente competentes em certas coisas, alterações de maneio, etc…
    Meter caixas no campo é fácil, mas produzir a sério é outra coisa totalmente diferente.
    Para muitos manter as abelhas vivas já é desafio…mas produzir bastante é outro campeonato como os mais experientes sabem.

  8. Lourenço diz:

    Comecei com abelhas aos 17 anos neste momento tenho 32 já passaram 15 anos de convívio com as abelhas. Arranjei 2 colmeias no inicio e nos anos que se seguiram fui sempre arranjando mais e o dinheiro que arranjava foi sempre para investir nelas neste momento tenho 120 colmeias, posso dizer que ainda não tive lucro para mim mas tenho o investimento todo pago extractor, colmeias etc… Esta jornada de 15 anos não tem sido fácil e ainda não é, não fiz progeto não fiz cursos foi tudo conquistado do meu suor, muitos erros muita aprendizagem na net principalmente e poucos amigos, posso dizer que tou nisto por amor as abelhas se não fosse isso já tinha desistido a muito. Amem as abelhas e depois pensem em ter algum lucro.
    Boas apis amigos

    • Oi Lourenço, essa é a abordagem certa.
      Mas chegado o momento de uma pessoa decidir ser profissional, pode e deve aproveitar os apoios. Mas não fazê-lo por ser uma saída que parece fácil ou por ser o último recurso. Mas sim porque se gosta e porque ano após ano conseguimos com sucesso o aumento de efetivo a producção, enfim, o BA ba

  9. Sou apicultor há 40 anos! Sempre foi uma forma de fugir ao stress profissional, e não um modo de vida. Se antes do aparecimento do varroa (1984) era fácil aumentar o efetivo fixo, pois, em cada toca duma azinheira centenária estava instalado uma colónia de abelhas, eram muitos os cortiços espalhados por Portugal inteiro sendo, em certos anos, o número de enxames selvagens extraordinário. Assim em 3 anos, de 1977 a 1980, passei de 10 enxames fixos, a 50 móveis. Destas, 35 moveis, um apiário completo, morreu em 1986, com a varroose. Vi que, se na minha mente alguma vez pensei dedicar-me á profissionalização, esse meu sonho morreu aí, tão frágil me senti naquela altura. Hoje, passados 30 anos, com as minhas 20 colmeias langstroth, vivo sem sonhos, em paz comigo mesmo, e as abelhas são para mim um refúgio e uma libertação. Pois a paixão, essa nunca morre.

  10. Pedro alves diz:

    O problema é a ilusão dos ganhos que dá cada colmeia e nunca são feitas as contas dos gastos de cada colmeia 😑

  11. Pedro Alves, é um excelente comentário!
    De facto a maioria dos apicultores calcula a produtividade de forma muito errada. Calculam que tiveram 100 colmeias, produziram 2 ton de mel…logo 20kg por colmeia!
    Nada mais errado, pois têm de dividir a producção pelo número total, que inclui as improdutivas, as perdidas no outono e inverno, os núcleos a contar como 0,5 colmeias…enfim! Como geralmente cerca de 20% morrem ou zanganeiras, ou por varroa ou por qualquer motivo, das que ficam há 20% de improdutivas e núcleos e as que falham ou enxameiam ou qualquer outra coisa…as contas são enganadoras.
    Gosto muito mas muito mais de colocar os custos e os benefícios e ir somando! depois contabilizar as horas de trabalho a pelo menos 12eur/hora e ver o resultado. Ao somar este último ponto nunca até hoje tive positivo!!!
    E uma exploração adulta leva pelo menos 4 anos a atingir, mesmo com o ponto de partida que defini no post.

    Abraço!!

  12. António Eugénio Raposo diz:

    Aqui discute-se a realidade! A apicultura ou se leva como amador e “não se fazem contas”…. ou para se ser profissional há que fazer contas, estudar muito, trabalhar muitíssimo, estabelecer muitos contactos, ter algum suporte económico de partida e saber enfrentar e prever as incertezas quer naturais quer do próprio mercado!
    Quando do primeiro congresso de apicultura em 1988, na Nazaré, era eu um jovem tinha cerca de 100 e sonho de chegar longe em conjunto com o meu pai!
    Circunstancias várias como algumas das mencionadas acima levaram a que não avançássemos…Mantive-me todos estes estes anos sempre com algumas colmeias não mais de 35.
    Tenho agora a oportunidade de em conjunto com os meus filhos ir mais longe, mas calmamente, arranque com 14 no ano passado, actualmente 40, objectivo no próximo ano 100, sem projectos por enquanto. Só lá iremos na certeza de virmos a ser dos tais 40% que têm êxito.
    Um abraço Afonso.

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