Dirigismo na Apicultura

Este artigo é apenas e só uma opinião, e chamo a atenção para este facto a todos os que o leiam.

A apicultura em Portugal sofreu na última década um assinalável progresso a nível de conhecimento e sobretudo de difusão e facilidade de aquisição do mesmo. No geral, considero que este é o ponto mais positivo que consigo apontar, e deve-se às associações, cooperativas e iniciativa privada, mas sobretudo à Internet.

No âmbito tecnológico e em maneio pouco mudou, alterando-se apenas a quantidade de UPP’s e Melarias instaladas, que muito beneficiaram do PRODER e PDR2020 e a abertura de mentes para outros produtos como o pólen. Foi assim também que me consegui profissionalizar e alavancar a exploração sem ter de recorrer a crédito.

Já no âmbito do dirigismo e de eventos apícolas, tenho progressivamente abandonado o meio a vou-me afastando progressivamente e sem retorno à vista a esse mundo. Pois o que vejo maioritáriamente em associações, cooperativas e federações, são dirigentes acantonados. Na sua maior parte, dirigentes que transitam de mandato em mandato, quer por falta de alternativas, quer por terem tornado essa função como um hábito.

Assim, colóquios e conferências, ou as reivindicações legítimas de um setor que vai mudando, continuam o seu caminho “anti-simplex”. Mexer em coisas simples é tão complicado como colocar as comadres da aldeia de acordo e poucas ou nenhumas novidades surgem nesses certames, ainda menos nas chatas e burocráticas sessões que se regem por uma espécie de guião não escrito, e em que perdemos um dia inteiro para escutar 15 minutos realmente interessantes.

A união entre cooperativas, associações e entidades é em muitos casos apenas aparente, vendo-se umas às outras como concorrentes em vez de se verem como parceiros. Têm medo de se fundir, de se unir, de idéias novas. Só assim se compreende a ausência de um mercado para o mel, que possa ser quotado, avaliado, leiloado…à semelhança do que se faz nas lotas do peixe. Em que o vendedor pode decidir o preço mínimo de entrega e o leilão começa num preço alto e decrescente, sendo o lote entregue ao primeiro licitador.

Um mercado justo, reivindicações simples mas com pés e cabeça e apicultores que deixem de olhar apenas para o umbigo. É o que se pede!

Temo (mas sem medo disso) que tal como no setor do vinho, sejam os privados que irão tomar lentamente o setor no seu pulso, com empresas jovens e dinâmicas. Porquê? Pois são empresas àgeis, que se adaptam melhor ao clima, ao maneio, ao mercado…à mudança!, e mais uma vez serão as instituições que já têm a papinha toda feita que irão gradualmente definhando.

Só não acontece mais rápidamente (na minha opinião apenas), pois a subsidiação governamental permeia o número de colmeias associadas (mesmo que só em papel e em número fictício), financiando assim entidades muitas vezes incompetentes com os meios que lhes permitem sobreviver, empurrando com a barriga para a frente por mais um ano. Muitas destas entidades não fazem mais que os intermediários do mel no que à comercialização diz respeito, e no momento em que o subsídio fosse cortado a verdade é que seria a capitulação imediata.

Este estado de coisas rouba os meios ao campo! Tanto técnicos, como os que poderiam e deveriam valer. No caso dos técnicos então é gritante…pois são administrativos, representantes, vendedores de mel…mas sem tempo nem meios para serem técnicos de verdade! Ou seja, sem poderem fazer o que deveriam…que era andar a visitar dia após dia os apicultores, tirarem amostras de cria, de cera, de mel, meterem eles os tratamentos certos nas colmeias de quem nao sabe o quê nem quando, e servindo de apoio a crestas, a maneios, a transumâncias.

Não vou com esta opinião discutir qual seria o modelo que no meu entender serviria a apicultura da melhor forma. Não tenho nem tempo nem vontade, pois são 6:10 da manhã e estou à 30 min já a fazer o trabalho administrativo e de leitura a que me obrigo para não perder o comboio da modernidade, e prefiro usar a minha energia para tentar fazer crescer uma das tais empresas jovens e dinâmicas, que infelizmente irão na próxima década e na seguinte (com o minguar dos fundos do Orçamento) tomar a apicultura Portuguesa em mãos.

Não pensem que dizer isto publicamente é agradável, nem que traz amigos! O que trás é que outros não sintam receio de falar abertamente sobre os temas, sem ofender ninguém, mas dizendo e fazendo o necessário para quebrar estes tabú!

P.S. – A falta que faz a capacitação freguesia a freguesia de sessões de capacitação em maneio produtivo. Num ano como este tenho a certeza que 2/3 dos apicultores perderam pelo menos metade da producção que poderiam ter (nomeadamente a sul do tejo onde a campanha foi excelente)…apenas e só por desconhecimento técnico. Há apicultores a recusarem-se a meter mais de 2as meias alças nas colmeias, em locais cujo limite este ano é o equilíbrio da torre!!

Sobre abelhasdoagreste

Jovem, apicultor apaixonado e que comercializa inovação apícola.
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2 respostas a Dirigismo na Apicultura

  1. apibeiras diz:

    Estou em plena concordância com o teu artigo.
    E ainda acrescento que quanto a apoios (diretos) da parte da UE, quando se compara com a vizinha Ibérica, a nossa apicultura poderia estar dois passos em frente. Pois aqui tudo se dilui e nada sobra para “nós” apicultores. Aqui ao lado, o €€ é entregue aos apicultores para manterem as colmeias vivas e de certa forma agradecer a preciosa ajuda que o parente pobre da agricultura dá à restante família agrícola… E não me venham com tretas do tratamento da varroa pelo PAN, pois gostava de saber como se safam os apicultores que não têm acesso ao tratamento sugerido. Saber sei, mas de uma forma legal não é e não se pode dizer. De qualquer forma, ainda é mais gritante quando os tratamentos (impostos) nem aparecem quando seriam necessários; e o apicultor trata unicamente pela vontade ou disponibilidade da associação, como se a colmeia também tivesse um telefone direto à associação, ou talvez até tenha… Who knows?

  2. Cristóvão, o que dizes é tb 100% verdade. Por vezes parece que o apicultor tem de ser semi-clandestino para poder ser apicultor. Uma infelicidade. O exemplo disso é o caso que aqui relatei da minha UPP de pólen cuja lei se permite a diferentes interpretações. As melarias são outro maná! em que é preciso uma tonelada de entidades burocráticas a avaliarem e serem muitas vezes minhoquinhas com coisas que acrescentam zero de qualidade final ao produto. No campo andamos sozinhos e desamparados.

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